Nas apurações para a realização da matéria A Caminho da Inclusão (Faixa 16, nº3), Realejo conversou com a professora Catarina de Souza Cruz. Professora, mãe e engajada na luta pelos direitos das pessoas com deficiência, Catarina apresenta uma visão ampla e esclarecida da educação inclusiva. Na conversa com Realejo, revelou-se não só uma mãe cuidadosa e dedicada, mas uma pessoa estudiosa e que defende uma visão bem fundamentada a respeito da inclusão.
Sua relação com a educação inclusiva e com o movimento das pessoas com deficiência iniciou-se em 1997 com o nascimento de sua terceira filha, Luiza, que tem síndrome de Down. A partir daí, Catarina percebeu que para construir uma vida melhor para a filha precisaria estudar para entender melhor sobre sua síndrome e tentar compreender o mundo que a envolvia. Para isso, passou a se relacionar com grupos e associações envolvidos com pessoas com deficiência.
Sobretudo no início não foi fácil. O primeiro grande obstáculo enfrentado foi a falta generalizada de informações sobre a síndrome, num nível tão elevado que até mesmo os médicos não tinham conhecimento suficiente para sanar todas as dúvidas da família.
Diante dessa falta de informação, Catarina resolveu pesquisar por si mesma. Formada em história, dedicou seu trabalho de mestrado a estudar o modo como as pessoas com deficiência eram percebidas ao longo dos tempos. Pesquisou ainda sobre educação inclusiva e realizou um estudo de caso de sua filha. A partir das pesquisas, produziu o livro Síndrome de Down: História e Inclusão (Ed. Quarup, 2007), numa iniciativa para de contribuir para que haja mais informação disponível sobre o assunto.
Educação Inclusiva
Catarina explica que é comum confundir educação inclusiva com a educação para pessoas com deficiência. Ela defende que, como no Brasil a exclusão tem uma grande amplitude, a educação inclusiva deve acolher todos os que, no decorrer da história, foram excluídos da escola, como as pessoas com deficiência, os negros, os pobres, os indígenas, os moradores de rua e, durante um período, as mulheres.
Para tanto, segundo a professora e mãe, a escola deve ser apta e capacitada e ter principalmente o desejo de ensinar a todos. Isso requer das instituições de ensino uma maior mobilidade e a quebra de alguns paradigmas que já estão consolidados. “Até há pouco tempo nós professores acreditávamos que se o professor falasse e os alunos escutassem, os alunos aprenderiam. Ensinávamos um conteúdo, dávamos uma prova igual para todos e quem não alcançasse 60% estava reprovado, como se todos aprendessem da mesma forma e ao mesmo tempo. Agora o que nós entendemos é que não é assim. As pessoas não aprendem da mesma forma nem ao mesmo tempo”, declara.
Para Catarina, na maior parte das vezes o preconceito é fruto da falta de informação. Muitos crêem erroneamente que as pessoas com deficiência não são capazes de fazer determinadas atividades. Essa crença existe porque não foi difundida a informação de que é possível às pessoas com deficiência realizar essas atividades. Por isso, há diversas entidades que se empenham em levar informação às pessoas, às escolas e às comunidades e mostrar que é possível incluir na sociedade todas as pessoas com deficiência.
Catarina esclarece que as pessoas com síndrome de Down podem aprender tudo o que seus colegas aprendem, mas precisam de mais tempo e, muitas vezes, de uma didática diferenciada. O professor deve ter a capacidade de entender que as pessoas aprendem de formas diferentes e o ensino não pode ser o tradicional, que abusa de aulas expositivas e limita os alunos à tarefa de copiar. Além disso, a professora defende que a relação entre ensinar e aprender deve ser uma relação de diálogo entre as partes: “Não pode ficar o professor no pedestal na frente e o aluno com alguém que só aprende. O aluno nos ensina muito e a educação inclusiva nos faz perceber isso”.
Outra crença existente é a de que a educação inclusiva é boa somente para as pessoas que estão sendo incluídas. Na verdade, os benefícios da inclusão vão além e a educação inclusiva é muito boa para todas as pessoas. Catarina salienta que quando se fala incluir todas as pessoas com deficiência, trata-se até das que possuem deficiência mais severa, já que todos são capazes de conviver em sociedade e podem ter algum ganho com isso. Maior ainda, completa a pesquisadora, será o ganho da sociedade ao conviver com essas pessoas.
A mãe já sente a diferença no comportamento dos colegas na escola da filha: observou que são crianças que lidam bem com as diferenças e com a deficiência, sem preconceito ou medo. Com relação à sociedade em geral, também aponta um progresso, haja vista o simples fato de que atualmente se vê mais pessoas com deficiência nas ruas com mais freqüência, o que indica que as famílias se conscientizaram da importância do convívio social. Mesmo com esse quadro, fica claro que as mudanças são devidas à manifestação da sociedade, principalmente por meio das entidades relacionadas a pessoas com deficiência. Por isso é importante que as famílias se informem e procurem essas entidades, de modo a fortalecer o movimento e facilitar a inclusão.
Em Belo Horizonte, uma referência é o Conselho Municipal da Pessoa Portadora de Deficiência, o e-mail é cmppd@pbh.gov.br e o telefone é 3277-4694.
Por João Paulo Prazeres
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Uma História de Inclusão
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Do limão à limonada
Ele teve coragem de assumir que tem o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) para cerca de 400 pessoas, em um simpósio que discutiu o problema. Fernando Limoeiro, 57 anos, diretor e professor do Teatro Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais, teve a garra de poucos. O objetivo dele é ajudar pais, professores e portadores de TDAH a enfrentar o problema. Seu instrumento é o teatro. Autor do esquete Esqueci de me lembrar, apresentado no mesmo evento, Fernando Limoeiro pretende levar a peça a outros públicos para contar um pouco do que se passa na vida escolar de quem tem o transtorno. Nascido na cidade de Limoeiro, no sertão de Pernambuco, Fernando Antônio de Melo (nome recebido por ele no nascimento) declara que por meio da hiperatividade “Deus o condenou à alegria”. Nesta entrevista você confere um pouco da experiência de quem conseguiu fazer uma boa limonada com vários limões.
Como e quando o senhor descobriu o TDAH?
Tomei contato pela primeira vez com esse transtorno, aos 48 anos de idade. Li um livro chamado Síndromes silenciosas e comecei a me identificar. Se eu estou lendo um livro e estou interessado, eu mergulho com tal profundidade que o mundo se abstém. Einstein, por exemplo, passava 20 horas resolvendo uma equação e para ele isso não era um problema. Em compensação, muitas vezes ele parava um aluno no campus da universidade para perguntar: “de onde é que eu estou vindo, do lado direito ou do lado esquerdo? Do lado esquerdo, ahh... então eu acabei de almoçar”. (risos)
Ao mesmo tempo em que eu fui me descobrindo, eu fui descobrindo a potencialidade de quem possui o transtorno. E aí quase que eu comecei a gostar de ter, porque o Bill Gates também tem, Leonardo da Vinci e Einstein tinham TDAH, então quando eu vi que esses gênios todos eram portadores do transtorno eu tive duas sensações. A primeira de dizer “vai ver que sou um gênio e não sei” (risos), e depois eu comecei a pensar no que eu sofri por toda a infância por ser portador do transtorno.
Que tipo de problemas o TDAH trouxe para sua vida?
Há um caso muito curioso, que pela primeira vez vou contar. Eu tinha acabado de participar de uma banca examinadora e fui para o aeroporto. Lá descobri um livro que há anos eu queria ler. Quando eu comprei o livro na livraria do aeroporto já foi uma coisa de outro mundo. Aí comecei a ler: capa, orelha, prefácio, introdução... E já estava na sala de espera quando chamaram: “Atenção senhores passageiros do vôo 1626, com destino a Belo Horizonte...”. Daí a pouco: “Atenção, senhor Fernando Antônio de Melo, favor comparecer ao balcão da Gol...”. Claro que o avião foi embora e eu perdi o vôo porque eu nem sequer ouvi as chamadas já que meu foco estava totalmente centrado na leitura. Aí eu troquei a passagem enlouquecido e voltei para o hotel mais enlouquecido ainda. No outro dia, eu sentei no mesmo lugar, abri o mesmo livro num capítulo mais interessante ainda... e perdi o avião de novo. Não é inacreditável? (risos) Foi aí que eu disse: “chegou a hora de procurar ajuda”.
O senhor acha que as dificuldades seriam maiores se não tivesse descoberto o problema?
Por ser uma pessoa que gosta de profundidade, de mergulhar na essência da vida, eu sofreria três vezes mais. Porque eu não sabia explicar porque eu tinha essas atitudes. E é muito difícil você ter uma pessoa com a minha coragem, um professor universitário, diretor de uma unidade, uma pessoa de razoável sucesso que assumiu o problema para que as outras pessoas que têm o mesmo transtorno não sofram o que eu sofri. É essa a razão de escrever o Esqueci de me lembrar, eu elaborei esse esquete para que a gente possa ajudar crianças, professores, pais, porque é muito raro você chegar numa classe que não tenha um ou dois TDAH.
O senhor ressalta bastante a ajuda que tem de sua esposa. Esse apoio e compreensão é muito importante para quem tem hiperatividade não é mesmo?
A minha esposa faz muito o papel de secretária. Não é brincadeira lidar comigo porque eu esqueço uma coisa, esqueço outra, então é preciso ter uma pessoa que tenha essa atitude de “secretariar”. Ela me ajuda muito no processo de organização. E quando é o teu amor, se junta o útil ao agradável. (risos)
Por Luciana Carvalho
Assinar:
Comentários (Atom)
