Ele teve coragem de assumir que tem o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) para cerca de 400 pessoas, em um simpósio que discutiu o problema. Fernando Limoeiro, 57 anos, diretor e professor do Teatro Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais, teve a garra de poucos. O objetivo dele é ajudar pais, professores e portadores de TDAH a enfrentar o problema. Seu instrumento é o teatro. Autor do esquete Esqueci de me lembrar, apresentado no mesmo evento, Fernando Limoeiro pretende levar a peça a outros públicos para contar um pouco do que se passa na vida escolar de quem tem o transtorno. Nascido na cidade de Limoeiro, no sertão de Pernambuco, Fernando Antônio de Melo (nome recebido por ele no nascimento) declara que por meio da hiperatividade “Deus o condenou à alegria”. Nesta entrevista você confere um pouco da experiência de quem conseguiu fazer uma boa limonada com vários limões.
Como e quando o senhor descobriu o TDAH?
Tomei contato pela primeira vez com esse transtorno, aos 48 anos de idade. Li um livro chamado Síndromes silenciosas e comecei a me identificar. Se eu estou lendo um livro e estou interessado, eu mergulho com tal profundidade que o mundo se abstém. Einstein, por exemplo, passava 20 horas resolvendo uma equação e para ele isso não era um problema. Em compensação, muitas vezes ele parava um aluno no campus da universidade para perguntar: “de onde é que eu estou vindo, do lado direito ou do lado esquerdo? Do lado esquerdo, ahh... então eu acabei de almoçar”. (risos)
Ao mesmo tempo em que eu fui me descobrindo, eu fui descobrindo a potencialidade de quem possui o transtorno. E aí quase que eu comecei a gostar de ter, porque o Bill Gates também tem, Leonardo da Vinci e Einstein tinham TDAH, então quando eu vi que esses gênios todos eram portadores do transtorno eu tive duas sensações. A primeira de dizer “vai ver que sou um gênio e não sei” (risos), e depois eu comecei a pensar no que eu sofri por toda a infância por ser portador do transtorno.
Que tipo de problemas o TDAH trouxe para sua vida?
Há um caso muito curioso, que pela primeira vez vou contar. Eu tinha acabado de participar de uma banca examinadora e fui para o aeroporto. Lá descobri um livro que há anos eu queria ler. Quando eu comprei o livro na livraria do aeroporto já foi uma coisa de outro mundo. Aí comecei a ler: capa, orelha, prefácio, introdução... E já estava na sala de espera quando chamaram: “Atenção senhores passageiros do vôo 1626, com destino a Belo Horizonte...”. Daí a pouco: “Atenção, senhor Fernando Antônio de Melo, favor comparecer ao balcão da Gol...”. Claro que o avião foi embora e eu perdi o vôo porque eu nem sequer ouvi as chamadas já que meu foco estava totalmente centrado na leitura. Aí eu troquei a passagem enlouquecido e voltei para o hotel mais enlouquecido ainda. No outro dia, eu sentei no mesmo lugar, abri o mesmo livro num capítulo mais interessante ainda... e perdi o avião de novo. Não é inacreditável? (risos) Foi aí que eu disse: “chegou a hora de procurar ajuda”.
O senhor acha que as dificuldades seriam maiores se não tivesse descoberto o problema?
Por ser uma pessoa que gosta de profundidade, de mergulhar na essência da vida, eu sofreria três vezes mais. Porque eu não sabia explicar porque eu tinha essas atitudes. E é muito difícil você ter uma pessoa com a minha coragem, um professor universitário, diretor de uma unidade, uma pessoa de razoável sucesso que assumiu o problema para que as outras pessoas que têm o mesmo transtorno não sofram o que eu sofri. É essa a razão de escrever o Esqueci de me lembrar, eu elaborei esse esquete para que a gente possa ajudar crianças, professores, pais, porque é muito raro você chegar numa classe que não tenha um ou dois TDAH.
O senhor ressalta bastante a ajuda que tem de sua esposa. Esse apoio e compreensão é muito importante para quem tem hiperatividade não é mesmo?
A minha esposa faz muito o papel de secretária. Não é brincadeira lidar comigo porque eu esqueço uma coisa, esqueço outra, então é preciso ter uma pessoa que tenha essa atitude de “secretariar”. Ela me ajuda muito no processo de organização. E quando é o teu amor, se junta o útil ao agradável. (risos)
Por Luciana Carvalho

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