quarta-feira, 4 de março de 2009

"É necessário construir uma passagem para a inclusão"

Desde janeiro deste ano, com a aprovação da Nova Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva de Educação Inclusiva, a Educação Inclusiva passou a ter lugar de destaque no ensino no Brasil. Essa modalidade, que consiste na adaptação física e humana das escolas regulares para receber alunos com deficiência, está sendo implementada em todo o país. Para conhecer um pouco mais sobre o assunto, Realejo conversou com a professora Priscila Augusta Lima, coordenadora do Grupo de Estudos de Educação Inclusiva e Necessidades Educacionais Especiais da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais.

Quais os princípios básicos da educação inclusiva e o que a diferencia da educação especial?

Até a década de 80 as pessoas com deficiência iam para escolas especiais. Às vezes entrava um menino cego com inteligência normal, mas a escola não tinha obrigação de alfabetizar porque era uma escola especial. As pessoas passavam anos ali sem nunca aprender a ler e escrever. Outra alternativa era a integração, que começou no fim da década de 60. Porém esse sistema não questiona nada da escola e serve apenas aos que têm condição de se adaptar à instituição. Se um aluno tem um problema de visão, por exemplo, tem que buscar materiais em Braille fora da escola.


Já a inclusão transfere para a instituição de ensino a obrigação de educar e de buscar instrumentos para isso. Ela implica numa alteração da escola e envolve o sistema de ensino, que tem que investir na qualificação dos professores, material adequado e recursos educativos, além de estimular a educação dessas crianças junto com as outras, proporcionando aos outros uma visão da diversidade humana.


Quais as vantagens da educação inclusiva?

A educação inclusiva provoca situações que deverão ser pensadas e alteradas para toda a sociedade. É o que chamamos "construção de uma mentalidade inclusiva". Um exemplo é a deficiência física, que exige alteração do ambiente, como rampa, banheiro adaptado, passagens para cadeira de rodas. Isso permite que pessoas cheguem a espaços e tenham contato com as outras, saindo do isolamento, além de possibilitar às demais um contato com a diversidade humana. Essa alteração do espaço físico também beneficia quem estiver com uma dificuldade temporária de locomoção, favorece a interação e faz com que as pessoas passem a perceber que pessoas com deficiência não são incapazes.


Quais as bases da implementação da educação inclusiva no Brasil, já que as escolas carecem de recursos até para lidar com os alunos que não têm deficiência?

Com certeza faltam recursos, instalações e apoio pedagógico. Muitas vezes nem o supervisor tem informações. Outro problema sério é a questão salarial. Geralmente o professor trabalha em dois turnos, além da maioria feminina que tem ainda mais uma jornada em casa, então não tem como desenvolver uma atividade pensada para todos. Nessas condições de trabalho, mesmo que a educação inclusiva seja enfatizada, o professor não tem tempo para refletir.


Há um movimento de inclusão total, que propõe o fechamento das escolas especiais e encaminhamento de todos à escola comum, e outro que tenta trabalhar com a idéia de uma transição, em que as escolas especiais ainda têm um papel mesmo na formação dos professores. Qual sua opinião sobre isso?

O fechamento da escola especial deixou muita gente sem saber o que fazer. Há adultos dentro de casa, que não saem mais, por conta dessa idéia. Então, isso tem que ser pensado e tem que ser desenvolvida uma política para os adultos com deficiência que estão em casa. Por outro lado deve haver uma pressão para a inclusão na escola comum, se não até crianças com problema de escrita comuns, que podem ser alterados no decorrer do aprendizado, seriam mandados para escola especial.


A proposta de inclusão total nega o que foi alcançado pela educação especial. A educação especial também produziu conhecimento e pesquisa que hoje ajudam na educação inclusiva. O campo da educação especial existe e não pode ser fechado como se nunca tivesse existido. É necessário construir uma passagem para a inclusão, que é o que tem sido feito agora.


Por João Paulo Prazeres

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