quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Vida guiada pelos sons

Sem visão desde a infância, artista cultivou sensibilidade auditiva que o tornou músico de vários instrumentos. Hoje maestro e professor, ele compartilha seu dom

Por Luciane Evans

Jornal Estado de Minas - 16 de agosto de 2008
foto: Beto Novaes/EM/D.A Press

Diz a sabedoria popular que quem canta seus males espanta. Seja no chuveiro, em uma roda de amigos, dirigindo ou até mesmo em cima dos palcos, a música alimenta a alma. Ivan Gomes, de 33 anos, que o diga. Maestro do Coral São Rafael, de Belo Horizonte, Ivan é daqueles músicos que não se encontram facilmente por aí. Além de reger, ele toca flauta, piano, órgão, violão, acordeão, cavaquinho, saxofone e, segundo ele, se arrisca na percussão. Um profissional completo que, além de ter afinidade com instrumentos musicais, arranca elogios pela voz que tem. O segredo, de acordo com ele, é a paixão, a vontade e o prazer em ouvir e cantar. A sintonia com os sons começou cedo. Aos 5 anos, Ivan perdeu a visão. Desde então, o que escutava passou a lhe chamar mais a atenção.

"Quando menino, sempre que ia às manifestações de congado, ficava atento. Quando a música parava, eu corria até os instrumentos e tentava tocá-los e ouvir o que eles tinham para me dizer", conta. O destino estava traçado. Ao perder a visão, o garoto que se tornaria maestro começou a se interessar ainda mais pelos sons e resolveu entrar para o coral de sua cidade, Sete Lagoas, na Região Central de Minas Gerais. "Aos 5 anos, eu não enxergava mais nada. Tive reação alérgica a um antibiótico, perdi dentes, cabelos e a visão. Nesta situação, comecei a perceber mais o que estava ao meu redor. E aos 10 anos, entrei para o canto de Sete Lagoas", lembra. Naquela idade, ele já tocava cavaquinho, saxofone, piano, teclado e vários outros instrumentos. "As pessoas chamam isso de dom, mas, para mim, é persistência e muita força de vontade."

Com a vida regida pelos sons, Ivan veio para capital nos anos 1980 para estudar na Escola Estadual São Rafael, também conhecida como Instituto São Rafael, no Barro Preto. Criada em 1925, a instituição é dedicada a portadores de deficiência. "É um lugar em que aprendo muito com amigos e companheiros em sintonias", diverte-se. Não se sabe ao certo se foi Ivan que encontrou a música ou ela que o achou. "Só não sei viver sem ela", diz, com muita firmeza.

E essa história de amor entre as harmonias e o músico não ficou restrita ao cantar e tocar. Ivan, que já foi coralista, dá aulas de educação musical e teoria de musicografia. Há dois anos, é maestro do coral de ex-alunos e crianças do São Rafael. "A maioria é deficiente visual, mas temos estudantes portadores de deficiência mental", diz. Com as partituras em braille, ele rege os corais estalando os dedos, sussurrando ou batendo o pé. "É muita concentração, tanto minha quanto deles. Muitas vezes faço gestos, e as pessoas se intrigam com isso, mas na verdade é uma forma de me acostumar com essa maneira, caso um dia trabalhe com coralistas sem deficiência. Quem sabe em uma orquestra?", imagina, apostando no futuro.

Casado e pai de dois filhos - Gabriel, de 11 anos , e Isabela, de 6 -, Ivan confessa que depois da família, sua profissão é primordial. "É a musica que me faz viajar sem sair do lugar. É só escutar que o pensamento vai longe. Ela é tudo para mim, mexe com o meu lado emocional e desenvolve meu raciocínio. Todos deveriam alimentar essa paixão, para espantar os males. Mas muitos arranjam desculpas como idade, tempo, preguiça. Não é preciso trabalhar como músico; é só ser um ouvinte, que a alma agradece", aconselha.

PREFERÊNCiAS - "Voa, voa que eu chego já", diz a parte da música que fala mais alto ao coração de Ivan. Composta por Kleiton e Kledir, Vira Virou é a canção que o maestro mais gosta de cantar e ouvir. "Tem suavidade e transmite paz. O ritmo me leva para longe", revela.

A partir de hoje [16], ele se apresenta, ao lado de inúmeros outros músicos, em shows espalhados por BH e outras cidades (veja quadro), no 6º Festival Internacional de Corais, que homenageará a Bossa Nova. Ao seu toque, os coralistas cantarão Luz Viva, de Flávio Venturini. "Temos um repertório lindo, mas esta mexe com o íntimo de quem toca ou escuta. É fantástica", garante, para concluir que a alegria da vida está nos sons. "É com eles que nos sentimos vivos", define.

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